MADRID, Espanha, 24 de outubro de 2026. Há traições que chegam de desconhecidos, e há outras, muito mais difíceis de digerir, que vêm de quem esteve sempre ao nosso lado. «La empatía de la arpía», tema em espanhol do álbum «El día de la liberación», ocupa-se desta segunda categoria. É a história de alguém que celebrava os aniversários, estava presente nos momentos certos e, por dentro, fazia exatamente o contrário do que mostrava.
A canção abre como um conto: «Esta es la historia / De la empatía de la arpía». Esta é a história da empatia da harpia. A figura mitológica da harpia, metade ave, metade mulher, conhecida por roubar e sujar tudo o que tocava, é aqui usada como metáfora de um comportamento, não de um género nem de uma pessoa concreta. A harpia da canção pode ser qualquer um: um colega, um amigo de infância, um familiar, um parceiro.
Mike Sain't Louis, o primeiro cantautor IA: letrista, compositor e produtor musical (música e interpretação vocal feitas com IA), escolhe começar por relativizar o tempo. «Veinte, treinta o cuarenta años / Eso da igual», diz o texto: vinte, trinta ou quarenta anos, tanto faz. O que muda é apenas o número de enganos. Esta ideia é importante porque desfaz um mito comum, o de que a antiguidade de uma relação garante a sua lealdade. Às vezes, quanto mais tempo alguém nos conhece, mais ferramentas tem para nos magoar.
O verso mais duro da canção é também o mais revelador: «Se aprendió tu herida entera / Para apretar donde dolía». Aprendeu a tua ferida inteira para apertar onde doía. Aqui está o centro do tema. A empatia, que normalmente associamos a cuidado, pode ser usada como instrumento de controlo. Quem sabe exatamente o que nos dói sabe também onde carregar. Muitas pessoas que passaram por relações manipuladoras reconhecem esta sensação: a de terem partilhado as suas fragilidades com quem depois as transformou em arma.
Segue-se um par de imagens em espelho que resume a duplicidade: «Te miraba con ternura / Mientras por dentro te vendía». Olhava-te com ternura enquanto por dentro te vendia. E, logo a seguir, a metáfora espacial que fecha a primeira parte: «Prometía ser refugio / Y era una habitación sin salida». Prometia ser refúgio e era um quarto sem saída. A casa segura revela-se uma armadilha. É uma imagem que fica na cabeça muito depois de a música acabar.
O que distingue este tema de uma simples canção de ressentimento é a clareza. O texto não insulta, não procura vingança espetacular. Descreve, com uma precisão quase clínica, um padrão de comportamento, para que quem ouve o possa reconhecer na própria vida. Há até um pormenor que muitos vão identificar: se adoeces por causa dela, não importa, porque a culpa acaba sempre por ser tua. Esta inversão da responsabilidade é um dos sinais mais claros de manipulação emocional.
Para o público português, a canção tem uma ressonância particular. Numa cultura onde a amizade de longa data, o "amigo de sempre", tem um peso enorme, admitir que alguém próximo nos fez mal pode parecer quase uma traição à própria história. «La empatía de la arpía» dá licença para essa admissão. Diz, em resumo, que reconhecer o dano não apaga os anos bons, mas também não obriga a ficar.
A imagem que acompanha este comunicado é um fotograma do videoclipe: dois cães caminham sobre a areia molhada de uma praia, ao fim da tarde, com um enorme planeta refletido na água e uma cidade costeira ao fundo. Não há rostos humanos, apenas silhuetas de animais e luz. A escolha diz muito sobre o universo do artista, onde os animais surgem tantas vezes como símbolo de lealdade verdadeira, o contrário exato da harpia.
O tema integra a trilogia GAYFOLK, que Mike Sain't Louis desenvolve a partir de Madrid na sua própria editora. Planeta Gayfolk é um planeta imaginário onde as pessoas que foram tratadas como estranhas deixam de pedir desculpa por existir. Nesse mundo há sátira, pista de dança, praias e também canções como esta, que funcionam quase como manuais de autoproteção. O álbum «El día de la liberación» tem precisamente esse fio condutor: o momento em que se percebe o jogo e se decide sair dele.
Quem estiver a viver algo parecido pode encontrar nesta canção um primeiro espelho. E, se o mal-estar persistir, falar com alguém de confiança ou com um profissional de saúde mental é um passo valioso. Nenhuma música substitui esse apoio, mas pode ajudar a dar-lhe nome.
Toda a música do artista pode ser ouvida e descarregada gratuitamente, sem registo e sem pagamento. A loja de gayfolkplanet.com, totalmente gratuita, oferece as faixas uma a uma, e a página de descargas de mikesaintlouis.com reúne os álbuns completos. A letra integral e o videoclipe estão na ficha do tema em gayfolkplanet.com, e um texto de contexto em mikesaintlouis.com explica como a canção nasceu.
No fim, «La empatía de la arpía» deixa uma pergunta incómoda e útil: quem, na nossa vida, nos conhece para cuidar, e quem nos conhece para apertar? Saber a diferença pode ser o início de uma libertação.
- Letra e videoclipe: https://gayfolkplanet.com/letras/la-empatia-de-la-arpia
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Sobre o autor: sediado em Madrid, Mike Sain't Louis é o primeiro cantautor IA: letrista, compositor e produtor musical (música e interpretação vocal feitas com IA). Escreve, produz e realiza os videoclipes de Planeta Gayfolk e da trilogia GAYFOLK na sua própria editora, MIKE SAIN'T LOUIS. Toda a sua música pode ser ouvida e descarregada gratuitamente: https://gayfolkplanet.com/tienda e https://mikesaintlouis.com/descargas